Carreira

Descubra seus pontos cegos na carreira profissional

Através da Janela de Johari podemos compreender as múltiplas visões da vida profissional. Contudo, para ir além no conceito, trazemos alguns insights que ajudam a identificar potencialidades e pontos cegos numa carreira
Augusto é Diretor de Relações Institucionais do Instituto Four, Coordenador da Lifeshape Brasil, Professor convidado da Fundação Dom Cabral, criador da certificação Designer de Carreira e produtor do Documentário Propósito Davi Lago é coordenador de pesquisa no Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da PUC-SP, professor de pós-graduação na FAAP e autor best-seller de obras como “Um Dia Sem Reclamar” (Citadel) e “Formigas” (MC). Apresentador do programa Futuro Imediato na Univesp/TV Cultura

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Vamos começar com uma máxima: às vezes, o que está impedindo seu crescimento na carreira são seus pontos cegos. Por exemplo, você pode ser uma pessoa muito mais chata e desmotivada do que imagina, ou quem sabe poderia estar faturando dez vezes mais se soubesse se posicionar melhor no mercado. Todos nós temos “pontos cegos na carreira”, isto é, aspectos relevantes na carreira profissional que desconhecemos.

Todo profissional, por mais experiente e consciente que seja de sua própria carreira, de seus defeitos e virtudes, não tem absoluto controle ou visão integral de suas próprias falhas, acertos e possibilidades. Seres humanos não podem ver tudo. Criamos retrovisores porque não somos dotados de olhos na nuca. Instalamos câmeras de segurança porque não somos onipresentes. Infelizmente, muitos profissionais vivem aquém de seu potencial porque não conseguem perceber erros críticos escondidos em seus pontos cegos.

Em 1955 os psicólogos Joseph Luft e Harrington Ingham desenvolveram o conceito da janela de johari. Trata-se de uma ferramenta conceitual com um objetivo simples: auxiliar na compreensão de como nos relacionamos com outros. A janela de johari apresenta quatro quadrantes:

– Eu aberto: tudo que sei de mim mesmo e que os outros também podem ver e saber.
– Eu oculto: aquilo que sei de mim, mas não deixo outras pessoas saberem.
– Eu cego – tudo que outras pessoas enxergam em mim, mas eu não consigo enxergar.
– Eu desconhecido – O que nem eu, nem outros, conseguimos enxergar.

O que queremos chamar sua atenção é justamente para o “eu cego”: ao ampliar sua perspectiva e consciência sobre seus próprios defeitos e limitações, você ampliará sua assertividade no desenvolvimento profissional. Perceba que há duas premissas básicas na questão: __(1)__ carreiras são pessoais e __(2)__ há erros profissionais causados pelo desconhecimento.

Em primeiro lugar, toda carreira profissional é estritamente pessoal. [Ninguém pode construir uma carreira em seu lugar](https://www.revistahsm.com.br/post/criterios-de-carreira-como-a-clareza-de-valores-melhora-a-trajetoria): a sua carreira é indelegável e intransferível. Como disse Eunice Azzani, diretora da Korn/Ferry International: “empregos são dados e tirados – muitas vezes por forças que você não consegue controlar. Mas sua carreira pertence a você”.

Em segundo lugar, nossa experiência profissional diária revela uma grande quantidade de erros que cometemos por simples ignorância. Assim, nosso objetivo neste artigo é aclarar este tema e explorar possibilidades práticas para que gestores e líderes ampliem suas habilidades de autoconsciência. Precisamos aprender a ouvir os outros para que nossos pontos cegos sejam identificados e consigamos superar erros desnecessários.

## O maior erro da carreira

Samuel Butler afirmou: “não existe erro maior que estar sempre certo”. De fato, pessoas do tipo “sabe-tudo” são difíceis de tolerar. Não importa o que você diga, a resposta delas é “já sei”. Normalmente são pessoas taxativas em suas afirmações, sempre dispostas a julgarem os outros e imporem suas opiniões como a última palavra sobre qualquer assunto.

Na vida profissional este comportamento é cada vez mais fatal. Não apenas pelas oportunidades cada vez menores aos profissionais que são incapazes de trabalhar em equipe, mas também pelo avanço da automação dos postos de serviço. Com a vertiginosa escalada da inteligência artificial, a aptidão humana de compreender e discernir erros, valores, propósitos e metas individuais e coletivas é um diferencial competitivo. Os robôs mais avançados ainda estão longe da autoconsciência humana.

Assim, um traço comum em gestores e líderes de ampla projeção é a capacidade de descobrir seus próprios pontos cegos. Ray Dalio afirma em sua influente obra “[Princípios: vida e trabalho](https://www.intrinseca.com.br/upload/livros/1%C2%BACAP_Principios_Intrinseca.pdf)” que pontos cegos são “áreas em que seu modo de pensar o impede de ver as coisas de maneira objetiva”.

Dalio afirma ainda que pessoas bem-sucedidas profissionalmente têm a mente aberta, isto é, uma preocupação genuína de que talvez não estejam enxergando todas as alternativas possíveis. Assim, para muitas profissionais, é necessária uma mudança de atitude: ao invés de sempre presumir estar certo, presumir que sempre é possível aprender. Quando estamos demasiadamente fechados em nossas próprias opiniões, não conseguimos perceber alternativas melhores e então tomamos decisões ruins.

## Descubra seus pontos cegos

Não tape seus ouvidos aos ruídos. As críticas são mais que um poderoso antídoto contra a vaidade, são bússolas para encontrarmos eventuais pontos cegos em nossa carreira profissional. Afinal, há uma grande diferença entre três “visões” sobre nossa carreira: como queremos ser vistos; como pensamos que somos vistos; e como somos de fato vistos pelos outros. Portanto, absorver e considerar as perspectivas de outras pessoas nos ajuda a expandir as possibilidades de autoconsciência.

A humildade em triangular nossas opiniões próprias com pessoas confiáveis não tem relação com inferioridade ou subalternidade, mas com autoconhecimento e inteligência. Quem tem o espírito aberto sabe que pedir o conselho de pessoas competentes é tão importante quanto possuir uma visão própria das coisas. Uma coisa não anula a outra.

Neste ponto, três considerações são fundamentais: a qualidade dos interlocutores, a clareza na comunicação e o processo contínuo de revisão. Antes de tudo, é necessário distinguir interlocutores qualificados. Seja realista em relação à qualidade dos seus contatos. [Não confunda meros conhecidos com verdadeiros contatos](https://www.revistahsm.com.br/post/os-tres-pilares-da-empregabilidade). Há profissionais que vivem enganados: acreditam ter uma rede de contatos ampla, quando na realidade possuem apenas um aglomerado de dados desconexos de pessoas distantes.

Em segundo lugar, uma vez identificadas as pessoas que realmente podem contribuir com qualidade em seu desenvolvimento profissional, é importante comunicar com assertividade suas demandas. Diga aos seus interlocutores que precisa de ajuda para mapear pontos cegos. Seus amigos e parceiros profissionais não têm como ler sua mente. Há pessoas dispostas a ajudar, mas podem estar esperando que você se manifeste, pois não querem desrespeitá-lo oferecendo ajuda. Facilite as coisas para você mesmo. Por fim, mantenha um processo contínuo de revisão. Não passe longos períodos sem ouvir seus conselheiros.

## Insigths para carreira

__1.Compreenda quais são os pontos cegos de sua equipe.__
A compreensão dos pontos cegos na carreira profissional também tem aplicações para o trabalho em equipe. Steve Chandler e Scott Richardson apresentam algumas perguntas que podem auxiliar gestores e líderes neste sentido: “como podemos tornar inesquecível a experiência de comprar algo em nossa empresa? O que devemos fazer para que o cliente crie uma relação de amizade com a nossa equipe e tenha vontade de voltar e comprar mais? Como podemos recompensar um funcionário por lembrar o nome de um cliente? Que estímulo podemos dar à equipe para que venda mais? O que precisamos fazer para a equipe se envolver mais com o sucesso da loja?”.

__2. Mantenha o foco na qualidade dos seus relacionamentos, não na quantidade.__
É difícil cuidar de uma rede exageradamente grande de relacionamentos. Ter clareza de quem é quem em sua jornada profissional é essencial para a descoberta dos pontos cegos.

__3. Considere a possibilidade de estar errado.__
Ray Dalio afirma que se várias pessoas confiáveis apontam um erro seu e você é o único que não acha que errou, você deve admitir que seu ponto de vista é, no mínimo, tendencioso. É claro que é possível que você esteja certo e os outros errados, mas ainda assim é prudente ser aberto às possibilidades.

Pessoas de mente fechada não querem que suas ideias sejam contestadas, pessoas de mente aberta compreendem que existe a possibilidade de estarem erradas e que vale a pena separar tempo para considerar outras opiniões. Dalio sugere: “compare sua credibilidade com a dos demais e, se necessário, concorde em trazer alguém neutro para romper o impasse”.

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